A gestão, ou mais especificamente, a falta dela, é frequentemente lembrada como um dos principais gargalos da produção de leite no país. Toda semana, algum artigo, entrevista ou frase, em algum veículo de comunicação do setor, enfatiza que a solução para a maioria das dificuldades do produtor de leite passa pela “melhoria da gestão”.
O professor Sérgio De Zen, em entrevista à revista Balde Branco, afirmou que “todo ganho de produtividade que se tenha deve ocorrer em todos os fatores de produção – terra, animais, mão de obra, entre outros. E para conseguir números melhores, é preciso investir no processo de gestão, pois a tecnologia está disponível para quem quiser. Ou seja, o que falta na maioria dos casos é mesmo gestão.” (Revista Balde Branco, março de 2016)
Do mesmo modo, professor Paulo Machado, ao falar sobre qualidade do leite em 2017, enfatizava que “os resultados obtidos por centenas de fazendas em todo o Brasil indicam que, muito além das questões técnicas e operacionais, o que vem fazendo a diferença para elevar a qualidade do produto é a gestão das propriedades”.
Sumário
ToggleMas afinal o que é essa tal gestão?
“Gestão pode ser definida como a alocação dos recursos escassos para o cumprimento dos objetivos humanos em um mundo caracterizado pelo risco e pela incerteza.”
Harsh, Connor & Schwab, Managing the Farm Business, 1981
“Gestão é uma atividade abrangente, envolvendo a combinação e coordenação de recursos humanos, físicos e financeiros, de modo a produzir um bem ou serviço que é tanto desejado como pode ser oferecido a um preço que pode ser pago, ao mesmo tempo em que o ambiente para os envolvidos seja agradável e aceitável.”
Giles & Stansfield, The Farmer as Manager, 1980
“Gestão é vista como aquelas atividades relacionadas à organização e operação de uma empresa para se atingir um fim específico. Ela dirige o uso de recursos após a interpretação dos objetivos por aqueles que controlam a empresa.”
Osborne & Schneedberger, Modern Agricultural Management
“Gestão é a organização e coordenação das atividades de um negócio a fim de alcançar objetivos definidos.”
Podemos notar que certas expressões estão presentes em todas as definições apresentadas:
Um conjunto de atividades, ou seja, coisas que devem ser feitas, que não acontecem sozinhas, como tarefas, operações, processos e decisões;
Organização, coordenação: alguém deve se encarregar da execução;
Recursos: financeiros, materiais e, especialmente humanos; a expressão “recursos” não pode ser separada da expressão “organização” ou “coordenação”;
Objetivos: o resultado propriamente dito da atividade de gestão
Veja também: Afinal, o que é gestão da produção de leite?
Gestão, gerência, gerenciamento, administração… É tudo a mesma coisa?
Sim e não. E a explicação pode parecer meio acadêmica e de pouca utilidade, mas é muito importante que se tenha claro o que diferencia esses termos, especialmente quando a propriedade, ou o negócio, passa a um patamar superior de profissionalização.
Na verdade, todos esses termos são traduzidos por uma única palavra em inglês: Management. E por que isso é importante? Justamente porque torna tudo a mesma coisa. Em termos práticos, isso nos dá a possibilidade de aprender a usar conceitos, ferramentas e modelos que são usados com eficiência comprovada no mundo todo, nos mais diversos ramos de atividade.
Por outro lado, a diferença está na denominação da pessoa que faz cada uma dessas atividades: quem faz gestão é o gestor; quem faz gerência e gerenciamento é o gerente; e quem faz administração é o administrador. De novo, a partir de um certo patamar de profissionalização da propriedade, essas atribuições devem ser claramente diferenciadas.
É claro que uma mesma pessoa pode acumular as atribuições de gestor e gerente. Ou de gestor e administrador. Normalmente, o dono do negócio é o gestor (um deles, pelo menos), porque, como fica claro em todas as definições apresentadas, gestão implica alocação de recursos, definição de objetivos e outras decisões que só o dono de um negócio pode tomar.
O que NÃO é gestão?
Talvez seja útil também deixar claro o que não é gestão numa fazenda de leite. Controle não é gestão. Um software de controle de dados zootécnicos e financeiros, por exemplo, é apenas uma ferramenta de gestão. Uma ferramenta extremamente útil e valiosa, mas não é gestão. Se o produtor conhece, por conta própria ou por intermédio de um serviço de consultoria, uma infinidade de índices zootécnicos e financeiros, mas não sabe identificar qual a utilidade deles ou como melhora-los, então ele não está praticando gestão.
Da mesma forma, se o produtor tem total controle sobre o caixa da fazenda, sobre os custos de produção, mas o negócio está operando no vermelho todos os meses, sistematicamente, há anos, ele não está praticando gestão.
Monitoramento não é gestão. É completamente inútil monitorar a freqüência de ruminação de uma vaca, a duração do cio, o tempo de ordenha, se não temos objetivos claros de melhoria de resultados relacionados a esses dados.
Peter Drucker, uma das maiores autoridades em gestão de todos os tempos dizia que “a essência da gestão não são técnicas e procedimentos. A essência da gestão é tornar o conhecimento produtivo”.
A Gestão “tradicional” versus uma nova forma de pensar
O Sistema MDA propõe um novo modelo de gestão de empresas produtoras de leite, baseado numa forma diferente de pensar e de agir, o Lean Management, ou Gestão Lean.
“A gestão lean é uma série de práticas que desenvolve as pessoas para entender e assumir seus problemas e alinha os recursos para alcançar o objetivo da empresa. Ela envolve todos na concepção de processos para continuamente resolver problemas, melhorar o desempenho e alcançar o propósito, consumindo a menor quantidade possível de recursos.” (Lean Lexicon, 5th edition)
Muitos produtores crêem que estão praticando gestão, muitos consultores oferecem serviços de consultoria em gestão. Mas cabe avaliar, com seriedade, se o progresso da produção de leite não poderia ser ainda maior se aplicássemos adequadamente, de verdade, as ferramentas e os conceitos de gestão disponíveis, sejam lá quais forem.
Disso tudo, o que realmente interessa para o produtor de leite são dois pontos: o primeiro é que gestão é, definitivamente, a diferença entre negócios bem sucedidos e mal sucedidos. Em todos os ramos de atividade. Desde fábricas de automóveis e de computadores a hospitais, redes de fast-food, etc. E com a produção de leite não dá pra ser diferente.
O segundo ponto: em poucas palavras, gestão é resolver problemas e alcançar resultados. Ou, numa definição mais robusta, resolver problemas de forma definitiva, e alcançar resultados cada vez melhores. E aqui ainda poderíamos adicionar um terceiro componente: o método de gestão.

