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A Força de Clareza na Fazenda

A produção de leite é um jogo de margens apertadas e detalhes cruciais. A especialista em gestão Lean, Karen Martin ¹, resume a base da eficiência e da clareza em cinco pilares, os 5 Ps: Propósito, Prioridades, Processos, Performance e Solução de Problemas (Problem Solving). É no primeiro P, o Propósito, que reside um dos maiores “desperdícios” de engajamento e eficiência nas fazendas.

O Propósito é a nossa razão de ser, e ele precisa estar claro para todos. Seu time, a força que faz a mágica acontecer todos os dias, sabe para quem está trabalhando e por quê? 

O que descobrimos é que, em muitas fazendas, a rotina esconde essa visão completa. O empregado geralmente sabe apenas que “a gente entrega leite pra tal cooperativa ou usina”, sem conectar seu esforço diário com o que o cliente final valoriza no produto. Se o empregado é quem garante a pureza, o volume e a qualidade que o cliente compra, ele precisa entender o Propósito final daquele leite. Sem essa clareza fundamental, a base da nossa pirâmide Lean desmorona, e perdemos muito mais do que imaginamos em foco e resultado.

A Tragédia da Opacidade: Os Custos do Desconhecimento

O que acontece quando essa clareza não existe? As consequências se manifestam como prejuízos silenciosos que minam a eficiência e o engajamento da equipe:

  1. Falta de Foco no cliente: Os empregados não sabem para quem o leite é vendido e tampouco sabem o que o comprador valoriza no leite entregue. Pior que isso, é o desconhecimento total por parte dos empregados dos atributos que o cliente (a indústria, o laticínio, a cooperativa) valoriza. É pureza (sem contaminantes)? É gordura? É constância de volume? Se o empregado não sabe que o cliente paga um bônus por teor de gordura, ele não tem um motivo direto e pessoal para ser rigoroso no manejo da dieta. O esforço se torna genérico, e os atributos de valor são negligenciados, resultando em menos dinheiro por litro para a fazenda.
  2. Baixo Engajamento e Rotatividade: Quando o time não sabe a importância do seu trabalho, a satisfação cai. O trabalho se torna apenas uma lista de tarefas, desconectado do sucesso financeiro da fazenda, tornando-os mais propensos a buscar oportunidades fora. Quando o dono da fazenda troca de “cliente”, raramente comunica aos empregados, e alguns só ficam sabendo meses depois.
  3. Resistência à Mudança: Trocar de cliente ou alterar os padrões de produção exige esforço e adaptação da equipe. Se eles só ficam sabendo da mudança meses depois ou a informação chega de forma informal, a confiança e a colaboração diminuem, resultando em lentidão e falhas na implementação de novos processos.

Conectando o curral ao consumidor

A Mentalidade Lean nos ensina que todo trabalho deve criar valor para o cliente. Na fazenda de leite, isso se traduz em Clareza de Propósito e Criação de Valor. O CNPJ da empresa para quem você entrega o leite, na verdade, não é o mais importante (em condições normais). O que importa é como esse cliente enxerga a fazenda e o que ele faz com o leite que entregamos. Na mentalidade lean, isso significa “que problema (do cliente) queremos resolver? Que benefício o cliente obtém quando compra o leite que produzimos na fazenda?”

Quando o empregado entende o que o cliente valoriza, ele consegue conectar o resultado do seu serviço — o manejo da ordenha, a limpeza do cocho — com os resultados da fazenda, bons ou ruins. Essa é a essência do Respeito pelo Empregado: junto com suas responsabilidades com o resultado de seu serviço, o empregado tem o direito de saber quem se beneficia de seu trabalho. Inúmeros estudos demonstram que, quando líderes demonstram esse tipo de respeito, o engajamento aumenta significativamente, transformando a equipe em verdadeiros donos dos resultados, sejam esses resultados bons ou ruins.

Ponha em prática: três passos para a clareza imediata

Você não precisa de grandes investimentos, apenas de atitude. Comece hoje a fechar o ciclo de clareza na sua fazenda:

  1. Leve o Time para a Indústria: Se for possível, organize uma visita à cooperativa ou laticínio para quem você entrega o leite. Deixe sua equipe ver o produto deles sendo transformado. Isso cria uma conexão visual e emocional poderosa com o cliente final.
  2. Formalize as Mudanças: Trate a equipe como parceiros de negócios. Comunique formalmente (em uma reunião, um mural) qualquer alteração no relacionamento com o cliente: mudança de preço, bonificações, penalidades. Toda informação que diga respeito ao trabalho deles deve ser transparente.
  3. Defina e Comunique Seu Propósito de Fornecedor: Deixe sua equipe saber que tipo de fornecedor você é. Use frases de efeito que orientem o trabalho: “Nós não toleramos entregar leite contaminado. Queremos ser o fornecedor Nota 10.” ou “Nosso foco é estar entre os três melhores fornecedores da cooperativa em volume e qualidade.”

(¹) Karen Martin é consultora, autora e palestrante norte-americana especializada em excelência organizacional, liderança e gestão lean. Ela é fundadora e presidente da TKMG, Inc. (The Karen Martin Group), empresa de consultoria que apoia organizações na melhoria de processos, na redução de desperdícios e no desenvolvimento de líderes. Reconhecida internacionalmente, escreveu livros premiados como The Outstanding Organization e Clarity First, sendo referência em transformar culturas empresariais para alcançar desempenho sustentável.